Que tipo de estudos devem ser feitos na área das Terapêuticas Não Convencionais?

No nosso país, antes de realizar estudos especificamente nas TNC, seria ainda fundamental dar um primeiro passo e realizar estudos de ordem mais sociológica que nos permitam conhecer a realidade da utilização das TNC em Portugal. Mas não é sobre esta necessidade que trataremos neste post.

Neste momento a tendência internacional aponta para que se desenvolvam mais ensaios clínicos e estudos de eficiência comparada (CER – Comparative Efficiency Research).

Em primeiro lugar, caberá contextualizar um pouco a situação em Portugal. Segundo o inquérito nacional de saúde de 2005-06, metade da população (5,2 milhões) tem pelo menos uma doença crónica; 2,6 milhões sofre de duas ou mais e 300 mil sofre de cinco ou mais. Estas são responsáveis por 60% a 80% das despesas do SNS.

Infelizmente não existem estudos realizados no nosso país, pelo menos em quantidade suficiente ou com a abrangência necessária, que nos permita ter um conhecimento mais exacto sobre a realidade das TNC, nomeadamente, estudos que nos digam quantos portugueses recorrem às TNC e para responder a que necessidades. Segundo a ERS – Entidade Reguladora da Saúde, dois milhões de portugueses recorrem às TNC, no entanto, este número, apesar de veiculado formalmente pelo presidente da ERS na Assembleia da República em 2013, foi obtido a partir de um relatório de uma única associação profissional portuguesa, que por sua vez não esclarece como o obteve. Ou seja, existe um número veiculado oficialmente, mas na verdade, não tem solidez ou grande sustentação. No fundo, acredita-se que Portugal não fuja aos números europeus, que neste caso são semelhantes aos apresentados pela ERS, onde se contabiliza que 1/5 da população europeia recorra às medicinas complementares (segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde).

Da mesma maneira que não se tem dados fidedignos sobre quantos portugueses de facto recorrem às TNC, também não sabemos quantos destes recorrem para lidarem com problemas crónicos. O que sabemos, sabemo-lo empiricamente, fruto da experiência dos clínicos e que é recorrentemente referenciado em congressos, contactos profissionais, etc., onde se constata que grande parte dos pacientes que procuram as TNC fazem-no por sofrerem de doenças crónicas para as quais não encontram alívio na medicina convencional. No entanto existem países com números oficiais, que para o caso em questão, serve como medida comparativa. Nos EUA, segundo o NCCIH – National Center for Complementary and Integrative Health, no serviço nacional de saúde americano, 4 em 10 americanos usam medicina complementar.

Além destas questões não nos podemos esquecer que este tipo de tratamentos são cada vez mais complexos, motivados por questões socio-económicas, factores de co-morbilidade, hábitos de vida, etc. Isto significa que realizar estudos de eficiência das TNC torna-se cada vez mais complexo uma vez que se têm de adaptar, tornar-se cada vez mais flexíveis, para poder abarcar todas estas questões.

Outro factor a ter em conta é a discrepância entre os estudos realizados em TNC e o conhecimento sobre os seus resultados por parte dos vários interessados, nomeadamente médicos, profissionais, responsáveis políticos e cidadãos comuns. Ou seja, para que possam ser tomadas decisões com conhecimento de causa torna-se fundamental que o conhecimento sobre a eficiência das TNC seja do conhecimento destes actores.

Apesar de em Portugal ser praticamente inexistente uma cultura de pesquisa em TNC, noutros países, como nos EUA, existe um crescente financiamento para investigação nesta área. No entanto este financiamento tem sido mais direccionado a estudos de eficácia de determinados procedimentos de TNC do que a estudos de eficiência. E isto faz toda a diferença, pois “eficácia” corresponde ao grau em que determinada intervenção é benéfica à luz de condições ideais e “eficiência” já será uma medida do grau em que uma intervenção, quando aplicada em circunstâncias de prática clínica normal, atinge o objectivo terapêutico a que se propôs numa determinada população. Ou seja, medir a eficácia é medir em laboratório, com o maior controle possível de todas as variáveis, ao passo que medir a eficiência é medir na prática real, no dia a dia, com pacientes normais, com as variáveis normais decorrentes da prática profissional diária. Isto significa que estudos de eficiência são muito mais importantes para os clínicos, para os decisores políticos e para as pessoas comuns. Mas como facilmente se perceberá, estudos desta natureza são um verdadeiro pesadelo metodológico, resultando em muito poucos estudos com a qualidade necessária para que possam apresentar resultados fidedignos.

Para investigar uma nova droga partimos dos estudos de eficácia para só depois poder realizar estudos de eficiência, no caso das TNC é o contrário, ou seja, as TNC já estão em uso ainda antes de ser garantida a eficácia das suas abordagens através de ensaios clínicos. Assim, deve ser seguida uma estratégia que produza evidência científica em eficiência comparada com outras abordagens terapêuticas, não convencionais e convencionais, antes de determinar a eficácia dos seus componentes. Isto irá ajudar a identificar tratamentos que tenham relevância para a prática clínica e o potencial para serem integrados nos cuidados de saúde ao mesmo tempo que se poupam recursos de investigação e posteriormente no próprio SNS.

Desta forma, os EEC – Estudos de Eficiência Comparada, têm um potencial enorme para serem um poderoso aliado dos clínicos, políticos e pacientes, para poderem ter escolhas mais informadas acerca das diversas abordagens terapêuticas à disposição.

Para a concretização deste modelo de investigação deverão ser levadas em consideração as seguintes recomendações:

  1. Para uma melhor tomada de decisões clínicas e de políticas de saúde é fundamental apostar em EEC – Estudos de Eficiência Comparada
  2. Este modelo (EEC) deve envolver os vários interessados (stakeholders) e em todos os momentos/etapas do processo de investigação
  3. Os EEC devem previligiar a eficiência em detrimento da eficácia para melhor apoiar as decisões clínicas e de políticas de saúde
  4. A formulação das perguntas para efeitos de estudos devem ser muito bem definidas, sendo isto um requisito para EEC
  5. A comunidade das TNC deveria promover a partilha de recursos, conhecimentos, informações, ferramentas e tecnologias para um melhor apoio ao uso e validação dos métodos EEC
  6. Devem ser desenvolvidos Guias de EEC

Para informação mais detalhada ler este estudo.

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3 thoughts on “Que tipo de estudos devem ser feitos na área das Terapêuticas Não Convencionais?

  1. Dinis Luis diz:

    Parabéns pelo vosso site.
    Sou estudante de Mestrado da Universidade Nova de Lisboa e como tenho formação em Homeopatia, gostaria de fazer a minha investigação e consequente Dissertação sobre o ensino das Medicinas Alternativas em Portugal. Gostaria de pedir a vossa colaboração neste sentido. Agradeço antecipadamente a vossa resposta ao meu pedido.
    Dinis S Luís (DHom)
    Homeopata, Licenciado em Educação e Estudante de Mestrado da UNL.
    DSL2348@hotmail.com

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  2. Dinis Luis diz:

    Agradeço pela vossa disponibilidade. Oportunamente entrarei em contacto. Penso que talvez no início do próximo ano terei que concretizar o plano para o projeto de investigação e vou precisar de algumas informações mais concretas sobre o assunto.
    Para já, o meu muito obrigado e bem hajam pelo vosso site.
    Dinis

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    • Dinis Luis diz:

      Ex.mo senhor,

      Há uns tempos atrás solicitei a sua colaboração para a minha investigação de Mestrado a que o senhor respondeu positivamente. Neste momento encontro-me na fase de apresentação do projeto do Plano de Investigação e, tenho necessidade de incluir os nomes das entidades e organizações, que vão colaborar na investigação respondendo aos questionários respetivos.

      A minha investigação de mestrado debruça-se sobre o tema:

      “O Ensino das medicinas Alternativas em Portugal: Ensino Presencial vs. e-Learning e/ou b-Learning.”

      Projeto de Investigação elaborado para o Curso de Mestrado em Educação com especialização em e-Learning – (TIC) da FCT-UNL (Universidade Nova de Lisboa).

      Sou formado em Homeopatia numa escola do Reino Unido e Licenciado em Educação em Portugal e, a minha investigação pretende apurar as possibilidades de serem organizados cursos em e-learning ou b-learning na área das Medicinas Alternativas, especialmente aquelas cujos planos de estudos do ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado já foram aprovados e publicados através de Portarias.

      Como não sei o nome do senhor nem qual o seu papel dentro das medicinas alternativas, gostaria de lhe solicitar essa informação se possível.

      Aguardo a sua resposta que desde já agradeço.

      Atenciosamente,

      Dinis Santos Luís

      Date: Mon, 23 Nov 2015 13:59:17 +0000 To: dsl2348@hotmail.com

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